Logo no começo de 2024, iniciei junto com mais duas colegas um clube do livro para que pudéssemos nos dedicar a ler e reler as obras de Freud. É bastante comum que entremos em contato com as obras freudianas de forma fragmentada, conforme vamos aprendendo a teoria na graduação e nos dedicando a assuntos especÃficos posteriormente. Se você é da área e se identifica com a psicanálise, com certeza já deve ter falado para si mesmo (várias vezes): “preciso ler os livros do Freud”. Acredito que exista um certo conforto na linearidade dos fatos, no acompanhamento do pensamento do pai da psicanálise. Uma sensação muitÃssimo gostosa é ler um trecho e pensar: “olha, tal conceito já existia aqui, mas ele não tinha dado nome ainda”.
Devido a uma certa dose de ansiedade, determinação e receio de não dar conta do compromisso semanal de estar presente no clube, escolhemos iniciar pelo segundo volume das obras completas de Freud, “Estudos sobre a histeria (1893-1895)”, sucessor do “Publicações pré-psicanalÃticas e esboços inéditos (1886-1889)”. Não significa que não poderemos nos dedicar a ele um dia, mas esse dia ainda não chegou. Para melhorar ainda mais a situação, o meu desejo de ter um blog para servir de suposto diário de estudos só aumentou conforme avançamos na leitura. E, cá estou, não apenas publicando pela primeira vez no Associa Livre como, também, fazendo o primeiro registro sobre esta obra.
Então, vamos pelo começo. O exemplar que tenho em mãos é a 1ª edição da Companhia das Letras, publicada em 2016 e traduzida pela Laura Barreto. Ainda que só o nome do Freud apareça na referência bibliográfica, é importante ressaltar que este livro foi escrito em co-autoria com o Josef Breuer. No sumário, podemos encontrar os prefácios e quatro capÃtulos: (1) sobre o mecanismo psÃquico dos fenômenos histéricos, (2) casos clÃnicos, (3) considerações teóricas e (4) a psicoterapia da histeria.
O interessante da leitura de estudos sobre a histeria é percorrer o mesmo caminho de Freud; tal como um engenheiro, acompanhar a obra. No prefácio à segunda edição, Freud nos diz:
“O desenvolvimento e as transformações que minhas concepções experimentaram, no decorrer de treze anos de trabalho, são demasiado amplos para serem considerados em minha exposição daquela época sem lhe destruir completamente o caráter. Por outro lado, falta-me qualquer motivo para eliminar esse testemunho de minhas opiniões iniciais. Ainda hoje não as vejo como erros, mas como primeira, estimável aproximação a conhecimentos que apenas depois de longo e continuado esforço puderam ser mais plenamente alcançados” (Freud, 1893/2016, p. 17).
Seria injusto, penso eu, alterar um registro devido a descobertas futuras. É bastante confortável já ter noções do que vai se desenvolver, mas nada se compara à satisfação de acompanhar “de perto” o que está acontecendo. É um privilégio bom. Desse modo, a leitura vai nos servir quase como uma brincadeira: além da escrita de Freud ser extremamente agradável, poderemos encontrar aspectos da teoria da catarse, os fatores psicossexuais, o papel do infantilismo, uma certa simbologia do inconsciente, etc. É um percurso muitÃssimo rico. E se parecer que gosto muito das bases da psicanálise, não é impressão sua. Eu realmente gosto.
Para iniciar a leitura, precisamos compreender que existe uma experiência prévia de Freud com Charcot no relativo ao tratamento de pacientes histéricos com a hipnose na França. Qual a relevância disso? Justamente que neste momento narrado no livro, partimos do princÃpio — junto a Freud e Breuer — que a sugestão hipnótica é a última moda em Paris. (Não consigo resistir à singela piadinha). Por enquanto, não temos associação livre, método catártico, transferência, nada; por aqui ainda tudo é mato, mas depois daqui temos o começo da construção do nosso edifÃcio (fálico, não?) porque Freud e Breuer vão começar a perceber algumas coisas... Nas próximas postagens, veremos mais detalhes sobre os capÃtulos, qual era o contexto histórico e, também, sobre o que aconteceu antes de 1893.
— Tahire
Referência
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Obras Completas, volume 2: Estudos sobre a histeria (1893-1895). Tradução de Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
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