Estudos sobre a Histeria #02 — O histérico sofre de reminiscências

agosto 14, 2024


        Certamente você já deve ter ouvido esta famosa frase de Freud ou, pelo menos, o que dizem por aí (em tradução livre popular): a gente sofre de passado. Em Estudos Sobre a Histeria, essa é, praticamente, a primeira consideração que Freud e Breuer nos apresentam. Compreendemos que a histeria é o fenômeno no qual há a expressão corporal de conflitos psíquicos de maneira inconsciente. Logo no começo do primeiro capítulo, “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos”, Freud e Breuer nos dizem que há alguns anos investigam a histeria em suas mais diversas formas, mas que não conseguiram (ainda) determinar o ponto de partida, isto é, a causa porque:


“muitas vezes se trata de vivências cuja discussão é desagradável para os doentes, mas sobretudo porque eles realmente não se lembram, e muitas vezes não fazem ideia da conexão causal entre o evento desencadeador e o fenômeno patológico” (Freud, 2016, p. 19). 


Neste momento inicial da história da psicanálise, o método utilizado para lidar e avançar nos estudos sobre histeria é a hipnose. Isso não serve de base para sustentar o uso da hipnose nos dias atuais, até mesmo porque o desenvolvimento da teoria psicanalítica vai nos apresentar que de pouco serve acessar um conteúdo inconsciente com o sujeito hipnotizado; além de violento, em termos psíquicos, seus efeitos são ineficazes. Há muito o que se discutir sobre o uso da hipnose hoje em dia, mas haverá outras oportunidades para tal.

Freud e Breuer conseguem apontar uma base: existe um fato que desencadeia o sintoma. Um bom exemplo citado pelos autores que serve de ilustração é o de uma jovem que desenvolve paresia no braço direito, o qual costumava ficar pendente no encosto da poltrona a qual ocupava ao velar o leito de um doente. Ainda que seja muito tentador estabelecer conexões entre o sintoma e uma possível causa traumática, nem sempre a conexão entre ambos será simples. As relações simbólicas não são tão acessíveis quanto dão a impressão. Em busca de “clarear” o caminho a ser percorrido para o entendimento dessa conexão, os autores afirmam que a presença do sintoma não extingue o trauma, isto é, ambos permanecem atuando no presente. 

Colocar o afeto em palavras seria a forma de levar o trauma à superfície (consciência) e “sanar” o sintoma, por isso que a mera recordação isenta de afeto — como realizado na hipnose — é ineficaz. Uma vez que o paciente consegue se lembrar do que aconteceu antes da aparição do sintoma e verbaliza com a maior clareza possível, a cena se repete, o afeto retorna e é revivido, movendo-se de onde estava acomodado para trilhar um novo caminho: a elaboração. Não significa que o trauma irá desaparecer totalmente, mas, ao menos, perderá sua tônica patológica. 

Quando Freud e Breuer nos dizem que “o histérico sofre sobretudo de reminiscências” (p. 25), eles estão dizendo que o plano de fundo da histeria é o passado, do qual não nos desvencilhamos. Como os autores disseram, uma lembrança tem o potencial de provocar lágrimas tempos depois mesmo em plena consciência desperta. Aqui temos o princípio de que o inconsciente é atemporal, ou seja, ele não segue uma ordem precisa e demarcada; presente e passado se relacionam como se fossem um só. Por isso que muitas vezes achamos o passado presente demais

Agora, por que vivências do passado podem continuar agindo de forma, às vezes, tão intensa? Os autores apontam que a chave para essa questão está na reação à vivência; se não há reação, o afeto continua ligado à lembrança e, assim, seus efeitos permanecem. Se uma reação ocorre de modo suficiente, boa parte do afeto se esvai. Denominamos ab-reação o processo de descarga emocional através da qual é possível que o sujeito desvincule o afeto da recordação traumática. Há ênfase, neste momento, na necessidade de reação ao evento gerador de sofrimento e a fala, a confissão, aparece como um bom meio. 

Contudo, nem todos os afetos serão ab-reagidos: ou porque o trauma não “viabilizava” uma reação ou pelo estado psíquico do sujeito quando a vivência ocorreu. Ambas possibilidades indicam que nem tudo será apenas sobre o conteúdo da lembrança, mas também pelas suas condições. Assim, o afeto traumático permanece vívido por conta da ab-reação que não ocorreu e pela reprodução em momentos de associação que lhe é negada. Estando a lembrança perdida, impedida de ser acessada, apenas seu afeto, o qual é mais “livre”, circula e faz com que não entendamos um sintoma que não parece estar relacionado a nada, mas que, por algum motivo, se faz muitíssimo presente. 

Concluímos que os histéricos sofrem de reminiscências porque seu sintoma está necessariamente ligado a um evento traumático ocorrido no passado. A “missão” da psicanálise, aqui, será a de trilhar o retorno para que possa haver a recordação da lembrança, a revivência do afeto e, então, sua libertação, a qual implicará na redução do sintoma e, quem sabe, em seu desaparecimento.


— Tahire


Referência

FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Obras Completas, volume 2: Estudos sobre a histeria (1893-1895). Tradução de Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


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