O estar de cada coisa
agosto 15, 2024
Podemos ouvir essa frase na música “Esquadros”, da Adriana Calcanhotto. Quando a percebi pela primeira vez, ouvindo despropositadamente o Spotify, associei ao funcionamento da ansiedade, a única que deseja chegar antes nos lugares… Quando estamos cansados, às vezes decepcionados ou sem a mínima vitalidade para encarar o grande hoje, ela nos força a fazer uma viagem desajeitada ao futuro. Precisamos saber o que é que vai acontecer, como, quando — e, de preferência, de uma forma bastante precisa. As coisas serão como imaginamos? É aqui que vem o problema.
A ansiedade quer chegar antes para sinalizar o estar de cada coisa, mas apenas uma perspectiva não dá conta de tudo que pode acontecer. Num exemplo bastante simplista, posso planejar a minha roupa para a reunião da quinta-feira da semana que vem; mas com a crise climática e o iminente fim do mundo, talvez eu deva ter três opções na manga, porque eu vou precisar sair cedo de casa e não posso me atrasar. A pandemia dificultou muito as coisas; sim, eu sei, essa reunião com certeza poderia ser on-line ou ser um e-mail, mas não é e eu tenho que fazer de conta que está tudo tranquilo porque eu não quero aborrecer meu chefe e… Consigo mostrar meu ponto? A ansiedade quer estar lá, justificada nessa narrativa construída com base em... ?
Quando chegamos antes para verificar como as coisas estarão, perdemos o que elas são. Boas ou más, perdemos o caminho, a experiência, paisagem, seja o que for; nem vimos. Estávamos ocupados demais tentando ver e, por fim, perceberemos que o hoje não é o que achamos ontem que seria.
— Tahire

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